Regulamentacao8 min de leitura

Influenciadores e Apostas: Regras e Punições na Nova Lei

Descubra o que a nova lei exige na relação entre influenciadores e apostas. Veja multas, regras do CDC e como denunciar publicidade enganosa.

JL

Equipe Jogo Limpo

A relação entre influenciadores e apostas tornou-se o principal motor de aquisição de clientes para as plataformas no Brasil. Durante anos, o feed das redes sociais foi inundado por promessas de riqueza rápida, exibição de carros de luxo e supostos "sinais infalíveis" para multiplicar dinheiro. Contudo, o que antes era um território sem lei agora enfrenta o rigor do Estado brasileiro. Com a vigência do novo Marco Regulatório, a publicidade digital de jogos de azar passou por um choque de ordem, impondo limites severos tanto para as casas de apostas (bets) quanto para os criadores de conteúdo.

Compreender o que a legislação exige é fundamental. Para os apostadores, é a garantia de não cair em armadilhas financeiras; para os influenciadores, é a linha tênue entre um contrato de publicidade lucrativo e a responsabilização civil e criminal.

Como funcionava a publicidade de apostas antes da lei?

Até o final de 2023, o mercado de apostas esportivas e cassinos online no Brasil operava em uma perigosa zona cinzenta. Amparadas apenas pela Lei nº 13.756/2018 — que legalizou a modalidade de quota fixa, mas carecia de regulamentação —, empresas sediadas em paraísos fiscais injetaram bilhões no marketing de influência brasileiro sem qualquer filtro ético.

Influenciadores digitais, ostentando milhões de seguidores, promoviam plataformas com discursos focados em ganhos fáceis. Era rotineiro deparar-se com narrativas como "transforme R$ 50 em R$ 5.000 jogando no celular" ou a exibição de supostos "greens" (apostas vencedoras) forjados em contas de demonstração (contas demo). Nenhuma menção aos riscos de perda financeira ou à dependência psicológica era feita.

Essa abordagem predatória tratava o jogo de azar como investimento financeiro, violando frontalmente o Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/1990), que assegura a proteção contra métodos comerciais coercitivos e desleais. A ausência de regras claras gerou uma epidemia de superendividamento, forçando o Governo Federal a intervir de forma drástica.

O que diz a Lei 14.790/2023 sobre influenciadores e apostas?

A aprovação da Lei 14.790/2023 mudou radicalmente as regras do jogo. A legislação estabeleceu um conjunto robusto de diretrizes para a operação e, principalmente, para a comunicação comercial do setor. O objetivo central é proteger o consumidor vulnerável, promover o jogo responsável e banir a publicidade enganosa.

Para detalhar as proibições, o Ministério da Fazenda publicou a Portaria SPA/MF nº 1.231/2024, que regulamenta especificamente as ações de comunicação, publicidade e marketing. A partir de agora, a responsabilidade do influenciador é objetiva e fiscalizada.

As novas regras obrigatórias para criadores de conteúdo

A legislação, aliada às diretrizes do Anexo X do CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), impõe obrigações inegociáveis:

  1. Fim da promessa de "dinheiro fácil": É terminantemente proibido veicular publicidade que apresente a aposta como solução para problemas financeiros, alternativa ao emprego, forma de investimento ou meio de enriquecimento. Expressões como "renda extra" ou "salário garantido" configuram infração grave.
  2. Avisos de risco obrigatórios: Toda peça publicitária (seja um Story de 15 segundos ou um vídeo longo no YouTube) deve conter a classificação indicativa "18+" e a cláusula de advertência "Jogue com responsabilidade".
  3. Transparência na parceria (Aviso de #Publi): O consumidor tem o direito à informação clara (Art. 6º, III do CDC). O influenciador deve deixar explícito que o conteúdo é patrocinado, não podendo disfarçar a publicidade como uma "dica de amigo".
  4. Proibição de publicidade para menores: A lei veda campanhas direcionadas a crianças e adolescentes. Influenciadores cujo público demográfico majoritário seja menor de idade estão proibidos de fechar contratos com casas de apostas.
  5. Apenas operadoras licenciadas: Esta é a regra de ouro. Influenciadores só podem promover plataformas que possuam autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA/MF) para operar no Brasil. Divulgar sites ilegais torna o influenciador cúmplice de contravenção penal e crimes contra a economia popular.

Tabela Comparativa: O que pode e o que não pode na publicidade de apostas

| Prática Publicitária | Status Legal (Portaria 1.231/24 e CONAR) | Exemplo Prático |

| :--- | :--- | :--- |

| Aviso de patrocínio (#publi) | ✅ Obrigatório | Inserir "Parceria Paga" na ferramenta do Instagram. |

| Prometer renda extra | ❌ Proibido | "Faça seu salário do mês jogando 10 minutos por dia." |

| Mostrar ganhos irreais / ostentação | ❌ Proibido | Gravar vídeos comprando carros de luxo com "dinheiro de aposta". |

| Alertas de Jogo Responsável | ✅ Obrigatório | Exibir "Proibido para menores de 18 anos" na tela. |

| Divulgar plataformas sem licença | ❌ Proibido | Promover cassinos clandestinos não listados no SIGAP. |

| Uso de contas "Demo" como reais | ❌ Proibido | Fingir que está apostando dinheiro real para enganar seguidores. |

O influenciador pode ser processado por perdas dos seguidores?

Esta é a pergunta que domina os tribunais brasileiros atualmente. A resposta depende da forma como a publicidade foi feita.

Segundo o Artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor, é proibida toda publicidade enganosa ou abusiva. Se um influenciador garante que um determinado "robô de apostas" ou "sinal do tigrinho" tem 99% de assertividade, ele está induzindo o consumidor ao erro.

A jurisprudência dos Tribunais de Justiça (especialmente TJSP e TJRJ) tem se consolidado no sentido de que, embora a aposta seja uma obrigação de risco, a fraude na oferta configura falha na prestação do serviço. Se o influenciador atua não apenas como garoto-propaganda, mas como um "sócio" ou intermediador direto que lucra com as perdas dos usuários (modelo de Revenue Share predatório), ele pode responder solidariamente pelos danos materiais e morais causados aos seguidores, conforme os artigos 14 e 18 do CDC.

A atuação da SENACON e do PROCON

A Secretaria Nacional do Consumidor (SENACON) e os PROCONs estaduais já iniciaram ofensivas pesadas contra essas práticas. Em casos recentes e notórios envolvendo jogos de cassino online (como o "Jogo do Tigrinho"), a SENACON emitiu medidas cautelares suspendendo plataformas e notificando dezenas de influenciadores para que removessem conteúdos enganosos sob pena de multas diárias que podem ultrapassar a casa dos milhões de reais.

Fui lesado por um influenciador de apostas: o que fazer?

Se você foi vítima de publicidade enganosa, promessas falsas de ganhos ou teve seu dinheiro retido por uma plataforma ilegal divulgada por um influenciador, a lei está do seu lado. Siga estes passos:

  1. Reúna provas: Faça capturas de tela (prints) e grave a tela do celular mostrando os Stories ou vídeos do influenciador fazendo as promessas. Salve os comprovantes de PIX e os históricos de conversa com o suporte da plataforma.
  2. Registre a reclamação: Utilize plataformas oficiais como o Consumidor.gov.br e registre um boletim de ocorrência (muitos estados possuem delegacias especializadas em crimes cibernéticos ou fraudes digitais).
  3. Acione o Juizado Especial Cível (JEC): Para causas de até 20 salários mínimos, você não precisa de advogado para processar a plataforma e, dependendo do caso, o próprio influenciador por danos materiais (restituição do valor) e morais.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Influenciadores podem divulgar qualquer casa de apostas?

Não. Com a nova regulamentação, influenciadores só podem fazer publicidade para casas de apostas (bets) que estejam oficialmente licenciadas e autorizadas pelo Ministério da Fazenda a operar no Brasil.

2. É crime um influenciador prometer "renda extra" com apostas?

Sim. A Portaria SPA/MF nº 1.231/2024 e o CDC proíbem expressamente a publicidade que trate apostas como investimento, solução de dívidas ou renda extra. Isso configura publicidade enganosa e abusiva.

3. Posso processar o influenciador se eu perder dinheiro?

Você não pode processar o influenciador simplesmente por perder uma aposta legítima, pois o risco é inerente ao jogo. Porém, se você perdeu dinheiro porque o influenciador divulgou um golpe, uma plataforma falsa que bloqueia saques, ou vendeu um "robô infalível" que não funciona, você pode buscar reparação judicial por fraude e publicidade enganosa.

4. Como saber se a publicidade de aposta é legal?

A publicidade legal deve conter o aviso "18+", mensagens de jogo responsável, a marcação clara de que é um conteúdo patrocinado (#publi) e não pode, em hipótese alguma, garantir lucros ou ostentar riqueza proveniente de apostas.


A era da impunidade na publicidade digital de jogos de azar chegou ao fim. A regulamentação trazida pela Lei 14.790/2023 e suas portarias representa um marco civilizatório para o mercado brasileiro, exigindo profissionalismo dos criadores de conteúdo e garantindo segurança jurídica aos usuários.

Se você enfrentou problemas com casas de apostas, saques bloqueados ou foi vítima de publicidade enganosa promovida por influenciadores, você não está sozinho. O Jogo Limpo é a sua plataforma definitiva para registrar reclamações, expor práticas abusivas e forçar as empresas a respeitarem os seus direitos. Pesquise a reputação da sua bet, registre sua queixa e ajude a construir um mercado de apostas mais seguro e transparente no Brasil.

Proteja seus direitos como apostador

A plataforma Jogo Limpo permite registrar reclamações contra casas de apostas com validade jurídica. É gratuito e seguro.

Registrar Reclamação